Suicídio: não há desejo de morrer, mas de parar de sofrer ou O dito que não foi dizido

Certa vez, estava em minha sala de atendimento, e chegou para ser acolhida uma senhora, muito distinta, bem vestida, elegante, fala mansa e pausada. Eu trabalhava nessa época com acolhimento de Pessoas envolvidas em Violência doméstica em um Projeto do Ministério Público do Distrito Federal. O olhar não era de um operador do direito, mas de um Especialista em Psicologia Jurídica que deveria compreender o que se escondia atrás da aparência.
Chamarei esta mulher de Maria. O Encaminhamento médico de Maria era de uma “suicida”. Nunca havia tentado se matar...não havia histórico. Nenhuma ocorrência policial que a envolvesse em conflitos domésticos. Morava em uma casa grande em um bairro de classe média alta, em um condomínio fechado.
Dois filhos adolescentes que, acostumados às discussões dos pais, ilhavam-se em seus quartos e seus fones de ouvido. Enquanto os pais brigavam, os adolescentes mergulhavam em um mundo por eles construídos, uma “secondlife”, um feudo intransponível que de um beirava a rebeldia e de outro a “belle Indifférance”.
Maria, cansada das brigas com o marido inseguro, possessivo, buscava por meio do trabalho e de medicamentos, esconder sua dor. Sua família desconhecia seu sofrimento. Discreta, introvertida, socialmente adequada, por meio de “catarses” em sua igreja, buscava de “alguma forma” se expressar. As desculpas nas idas ao psiquiatra eram sempre as mesmas: tristeza, desânimo, desmotivação. Mas nunca falara em suicídio. Pensava em alguns momentos em sumir, mas eram pensamentos invasivos que logo se dispersavam pelas tarefas a que se impunha.
Certo dia, no fatídico dia do início de sua libertação, de forma irônica (no dia em que Maria Morreu para viver), o casal, como sempre, ensaiou uma discussão...e como sempre seus filhos buscaram sua ilha de conforto. O que fazer em uma família disfuncional que expõe os filhos às suas emoções viscerais? No quarto, a portas fechadas...trancadas...o marido iniciou as agressões físicas. O assunto que motivou a discussão não importava, pois era apenas o “start” para o deslinde de uma tragédia...no sentido autêntico da palavra, onde por mais que se evite o “augúrio”, na verdade seus envolvidos o realizam.
João, nome que darei a este homem, visto pela sociedade como um monstro, mas que aprendi em meus acolhimentos a vê-lo como Vítima de Violência Doméstica (Há muita controvérsia sobre o tema), em seu ato covarde esgana Maria. Não há dúvidas de que a deseja morta! Desejo homicida! Para ele, naquele “locus familiar temporalis”, aquela mulher não deveria mais viver. Ato feito, consumado, o desespero toma conta de João que em ato impensado (Isso existe?) Inicia um processo de ressuscitamento. Que besteira?! João não queria matá-la, mas apenas ser ouvido! (Loucura). Ser atendido! Ser respeitado! Era seu direito! (#SQN). João consegue traze-la à vida, de volta à vida... sua amada esposa, e que vida! Chora, abraça, pede perdão! Quanta passionalidade. Enquanto isso, seus filhos, ilhados, alienados, nada sabem sobre o que ocorre! Por enquanto...
Maria, de vítima resolve se socorrer...pede água, mas não é a sede que a incomoda. Precisa fugir. Vê sua vida ameaçada e num gesto impensado (La vamos nós de novo, como se isso fosse possível), salta da cama em fuga. Mas a porta, como sempre, trancada, para que seus filhos não flagrassem a intimidade do casal. Maria se vê frente a frente com o seu assassino, que novamente se sente traído. Ele a ama...como ela pode enganá-lo de novo! O ato voltará a ocorrer e a tentativa de homicídio será ato! Mas Maria, que morreu a pouco, não quer mais morrer. Tem um último recurso: Matar-se! Isso mesmo. Se eu me matar, não serei mais assassinada! Não sofrerei mais! Maria joga sobre si um litro de álcool e acende um fósforo! Pronto. Feito está! E bem feito! E como disse Pilatos ao apresentar o Mártir inocente: ECCE HOMO! Da mão de João, escapou o ato...de vítima Maria se impôs. Quem me mata sou eu!
Lacan (1979), ao tratar do tema, o chama de “ato Verdadeiro”, aquele que diferente do ato analítico. Em sua “realização” revela a estrutura do ato. Ato é uma ação que manifesta um desejo. Diferente de conduta, própria dos animais, o ato é simbólico por tratar daquilo que se refere ao Signos, seu autor pode é responsável por ele, é ético. O ato pode ser sem intenção consciente, mas expressa um desejo inconsciente, como o ato falho, que somente é falho do ponto de vista da consciência, pois na verdade expressa um desejo inconsciente. Mesmo os atos acidentais são atos verdadeiros dos quais o sujeito deve fazer-se responsável. Sob este prisma teórico, não há tentativa de suicídio, acidente ou desejo não realizado. O ato é a passagem, a saída encontrada por um desejo que não encontra seu significante e foracluido, toca o real. Não há tentativa de suicídio, mas suicídio de fato. Não há tentativa de suicídio, pois desse ato, o homem que o realizou, não volta mais: MORREU. Maria morreu naquele dia. Descreveu-me sua morte como linda, agradável, leve! “Olhei para meus braços em chamas, não doíam, apenas os sentia em chama”(SIC). Essa era a busca...não sentir dor...e pela fala, Maria dispôs seu desejo: parar de sentir a dor daquela vida. Não há no inconsciente a construção de uma vida sem sofrimento, mas de uma nova vida que só será possível com o findar da que vive. Não há vida sem que a morte ocorra. As passagens se constroem como mortes e vivência de luto.
Poderia prosseguir descrevendo que seu salvador foi exatamente seu antigo assassino; que daí em diante as ilhas de seus filhos se romperam, seus vizinhos viram bombeiros, SAMU, polícia entrando na casa. Maria estava nua e morta! Não falo de sua nudez física e nem de sua morte fisiológica! Maria despia-se, revelando a todos “seu mundo sociocultural”,suas “vergonhas”. Sua morte assustou a todos! Mas Maria, a partir desse féretro, uma Fênix, nunca jamais será a mesma. Não há tentativa de suicídio. Há morte real, mais verdadeira que a física, morte de vida. O Simbólico não conteve sua dor, que buscou significado no real. Vazou. E para sempre, como um cristal quebrado, mesmo que colado, nunca mais será o mesmo. Há uma Série premiada pelo que traz cenas que nos lembram essa forma de sofre: Desperates Housewives (2004), onde uma mulher percebe sua vida apenas depois que se mata. Descobre que não é única em sua angustia, quando deixa de perceber apenas sua dor. O suicídio dá sentido a sua vida ( A ideia da série surgiu quando Marc Cherry e sua mãe estavam vendo na televisão uma matéria sobre Andrea Yates, mulher que havia afogado seus cinco filhos na banheira, um por um, aparentemente porquê não suportava o peso da maternidade).
Esse olhar não compõe o olhar do operador do Direito, que treinado em uma Academia, enxerga as Leis e o Jus como mantra a ser recitado e decifrado, inclusive em Latim. Mesmo que a interpretação , a hermenêutica e a exegese jurídicam sejam recursos à disposição, o olhar contaminado pelos conceitos de certo e errado diminuem a capacidade do operador enxergar o todo. A Atenção concentrada, exigida pela função de advogado, juiz ou promotor cega o operador de contemplar o todo da história.. E como um “Cold Case”, as histórias não são decifradas, mas apenas explicadas. Esse olhar não pertence às Ciências Sociais, que treina seis Partícipes a, de forma crítica, avaliarem os sujeitos na sociedade envolvidos. No entanto o olhar da da psicologia, mais estreitamente das Psicologias psicodinâmicas, ...aquela que ferramentada e empoderada pelo direito, dá conta de ver a vida na morte. Perceber a angustia de um ser em busca de significar sua vida é para além do direito, e para além da psicologia (metapsicologia). “Vivo melhor morto”. Não há sentido nessas palavras, mas metaforicamente o sentido é completo. A morte é apenas fim e início. Não morte, mas vida.
A história de Maria nos revela um desejo...o desejo daquilo que dito, deixa de ser “dizido” ( A criança, em sua construção da língua, ao conjugar os verbos , utiliza de regras comuns. Os verbos irregulares são conjugados como se regulares fossem. Por isso é comum que crianças digam o dito como “dizido”. . Ao evocar esse evento, buscamos encontrar nas palavras não o dito, construído pelo consciente, mas o “dizido”, operado pelo inconsciente, desvelando o desejo, ainda que se contraponha à vontade) e busca por meio de metáforas e metonímias, uma realização. Interpretar o suicídio como uma saída e um fim em si é negar que, como seres falantes que somos, desejamos e somos apenas desejo. O desejo nos move ao ato, mas o desejo não é o ato. O Desejo se escora e ampara na falta, no FALO. O Desejo transmuda, movimenta e conduz o sujeito à sua realização , que nunca pode ser completa, pois cessaria o desejo. O desejo sempre remeterá à falta e por isso será contínuo. Para Maria, faltava a vida, e por isso, de forma alguma Maria desejava morrer, mas viver.
Freud (1915), em sua teoria sobre a libido, nos direciona à percepção de que “desejamos” avidamente pela vida (Eros) Daí a conclusão de que o suicídio não pode consistir em uma busca de morte, exceto quando ele é a única saída para se viver. A morte buscada não é a de si mesmo, mas do Outro, que por invadir o sujeito, precisa morrer, ainda que isso signifique atentar contra a própria vida. O desejo não está preso à noção aristotélica e cartesiana de lógica, mas à construção do inconsciente como uma metonímia. O desejo de morrer carrega em si aquilo a que ela, a morte, remete.
O dito, carrega em si uma construção consciente, defendida, contida de recalques, projeções e inúmeros recursos do “eu” na defesa de sua estrutura. Já o “dizido”, metonímia de um desejo, desdenha do real, e por meio do que “não-diz”, o “dizido”, ato desejante de uma criança que jaz em cada um, aparentemente adormecida, mas de fato governadora de todos o nosso “isso” (ID). Por isso, não cabe a casos como o de Maria e de muitas Marias e Joãos compreendê-los como desejosos de morrer, como tendo desistido da vida. Por isso, o suicida realiza um “ato verdadeiro”. Não há, para a psicanálise, tentativa de suicídio. O suicida, ao tentar se matar, morre. Pois o dito foi “dizido”.
Soraya Carvalho, psicanalista, aborda o tema suicídio como uma manifestação humana, uma carta na manga que pode ser usada quando a vida se torna insuportável. Um modo de lidar com a dor de existir. O ser falante, ou falasser, é o único ser vivo que atenta contra a própria vida, que faz da morte uma escolha. Para a autora, o homem só suporta a vida porque tem na morte uma escolha, o que a torna suportável:

O homem suporta a vida pela possibilidade que dispõe de matar-se. A morte é o que torna a vida possível. A vida é real e a morte simbólica, e se o real é o impossível, viver é o exercício da impossibilidade. E o suicídio é uma escolha capaz de dar um significado à vida quando ela chega ao limite da impossibilidade (CARVALHO, 2014, p. 145).

Com o objetivo de tornar a vida viável e suportável, o ser falante ( falasser) coloca paradas, paragens, pausas em sua vivência: mortes, que repaginam sua existência. Isso me leva a pensar em uma paciente que atendi em Brasília: Enfermeira, realizada profissionalmente, mas em um quadro de desinteresse pela vida (suicídio?), relatava desde quando isso começou. A vida dessa moça, filha de uma criança esquizofrênica com um adolescente, abusada psicologicamente pela tia, tornou sua história suportável pela seguinte construção: “Aos 14 anos eu morrerei”(SIC). Isso tornou sua vida suportável, até o dia em que “morreu”. Aos 14 anos de idade a crise tomou conta de sua vida e por não ter uma morte física ( Real), sua morte simbólica precisava tornar-se ato. Seu desejo precisava ter sentido. Ela de fato morreu aos 14 anos, ainda que seu corpo continuasse vivendo. Uma nova pessoa precisava ressurgir, mas seu “cadáver” atrapalhava sua significação. Dizia: “Sinto-me morta” ( SIC). Não há sentido nessa vida. Foi necessário desfazer-se de seu cadáver, viver o luto da perda a fim de que sua nova vivência pudesse aflorar. O “suicídio” era um fato. Mas recusava aceitar que já se matara.
É no encontro com o real, com a impossibilidade, e a angústia advinda daí, que alguns sujeitos escolhem a morte. Mas, de que encontro se trata? Aquilo que parece obra do acaso ou destino, quando na verdade é a repetição do traumático, da constatação da não existência da relação sexual. Há sempre uma falta, o prazer nunca será completo. O ato será “.faltoso”. (falo).

Como um Prometeu acorrentado, viver significa dar conta de a cada dia morrer, permitir suas entranhas serem devoradas, mas com a sapiência de que tudo ocorrerá de novo. Presos ao Feitiço do Tempo. ( Filme de Harold Hamis sobre Phil, um arrogante meteorologista de um canal de TV, cobre a saída anual de uma marmota de seu buraco. Ele é pego em uma nevasca que não estava prevista e fica preso em uma espécie de túnel do tempo, condenado a reviver o mesmo dia até que mude suas atitudes. 1993). Estamos presos ao Feitiço do tempo até que nossas atitudes sejam confrontadas com nossos desejos. Nossa neurose nos conduz a um processo de eterna repetição, até que tenham sentido e possa , significadas, deixarem de ser necessárias.

Notas explicativas
O Projeto do Ministério Público do DF iniciou em 2007 e acolhia mulheres envolvidas em Violência Doméstica, partindo do construto de que a Intervenção legal só deve ser feita amparada por acompanhamento psicológico. Distante do viés de assessoramento, o grupo de psicologia jurídica tornava-se o braço acolhedor e interpretativo do sofrimento das partes. Os Promotores e Juízes aceitavam suspender o Processo da lei Maria da Penha, por um período de seis meses, dando à equipe Multidisciplinar condições de tornar as partes contemplativas de sua situação. Era uma interface entre o direito e o biopsicossocial, onde os conflitos eram acompanhados em sua totalidade.
Dizido: A palavra “dizido” é utilizada neste texto como uma expressão da metáfora da palavra-dita-pela-criança, onde não há compromisso com construções linguísticas, mas apenas com a subjetividade. Partindo do conceito do “parletre” em Lacan (ano), nós nos construímos no consciente a partir da palavra. O Inconsciente se torna consciente apenas por meio da palavra que de dizida, torna-se dita.
Ato Verdadeiro: O Ato verdadeiro nos remete ao fato de que todo ato é auto, posto que para Lacan o ato me separa do outro. O suicídio, sendo um atentado sobre sua própria vida, é por natureza um ato verdadeiro, posto que atua sobre si e o distingue do Outro.
Falo: O Conceito de falo em Lacan nos encaminha ao conceito freudiano de falta, aquilo que percebo não ter, e por isso movimenta o desejo. Pretende-se uma articulação entre ambos a partir da questão: qual a relação da angústia com o suicídio? O termo suicídio pode ser compreendido como "1. Ato ou efeito de suicidar-se. 2. Fig. Desgraça ou ruína procurada de livre vontade ou por falta de discernimento" (Ferreira, 1999, p.1900).

Referências
Lacan, J. Seminário, Livro 1, Os escritos técnicos de Freud. R.J. Zahar. 1979.
FREUD, Sigmund. Obras Completas (Imago) – Vol. 14 Pag. 117
MARÇAL Júnior, Orlando. O Projeto de Justiça Restaurativa na experiência da
Promotoria de Justiça do Gama. Revista IOB de Direito Penal e Processual Penal.
Porto Alegre: IOB, 2008a, n. 51, p. 198-201.
CARVALHO, S. A morte pode esperar? Clínica psicanalítica do suicídio. Salvador: Associação Campo Psicanalítico, 2014.

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