Perdendo o foco...ou descobrindo o que se esconde?

Todas as vezes que acolho em meu consultório pessoas em desespero, uma atitude comum a todas elas é a confusão. Queixam-se de não conseguir se concentrar, de se esquecer das coisas. Curioso é perceber que os desesperados são pessoas que perderam o foco...esqueceram-se do que de fato querem.
No Filme Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carrol, há um diálogo interessante sobre isso:
“Aonde fica a saída?", Perguntou Alice ao gato que ria. ”Depende”, respondeu o gato. ”De quê?”, replicou Alice; ”Depende de para onde você quer ir...”
Uma pergunta tão simples que fazemos a todo instante, mas que carrega sobre si um peso enorme de nossa condição. ”Depende de para onde você quer ir...” Para o desesperado o sofrimento não é de não ter saída, mas de não saber que saída tomar! Por isso a confusão é percebida em crises. O desespero não é o problema, mas uma reação à sensação de não se saber o que precisa, de estar sem norte. E nessa situação qualquer saída é e ao mesmo tempo não é solução. Ao drogar-se, o jovem pensa que precisa dela para sair de onde está...mas a droga não acrescentará nada...apenas desfocará mais ainda. Ao beber, o álcool apenas anestesiará a percepção, mas a saída ainda estará velada (escondida) e por isso ainda não resolverá o problema. Envolvendo-se em conflitos, agredindo, o confuso não fará nada além de buscar um novo foco...que não será o real e necessário. Só poderei enfocar se souber o que procuro.
Como trabalho com Florais, em todo Buquet inicial envolvo uma Flor chamada Clematis objetivando que meu paciente tenha foco, coloque seus problemas em uma hierarquia, evitando o efeito gargalo. Aquela sensação de "entalamento" onde as coisas parecem ser bem piores do que são de fato.
A perda do foco tem sua explicação psicodinâmica em um mecanismo de defesa, onde por ser compreendido como indigesta, nosso inconsciente nos leva, naquele momento, à evitação da "dor" real. Enfrentá-la doi muito, e por isso, somos desfocados. Surge como saída a fuga, a negação, a projeção, transferência e por aí vai. Por ser um mecanismo de defesa, deveria apenas nos protege na crise e ser abandonado após esta crise a fim de que pudéssemos elaborar o ocorrido. No entanto, em uma estrutura neurótica, aquilo que nos defenderia acaba por nos sugar e nos viciamos nesse desfoque como evitação do sofrimento...e ao não sofrermos pelo real, sofremos por tudo em que ele se projeta...e por não podermos mais enxergar o problema real, não conseguimos identificar a saída.
Alguns, sem o foco real, focam um ponto e por meio de um comportamento psicótico, fanatizam-se. Voltamos ao quadro de desespero, onde se antes não tínhamos um foco e como estrábicos olhávamos para um lado observando outro, agora nosso foco imaginado como real ( digo imaginado por que se fosse a real saída não precisaria ser doentia) torna-se único e nosso olhar, daltônico, não nos permite ver nada que não esteja da cor que pintamos.
Enfim, ter em mente o que de fato nos doí sempre será a forma de não sofremos mais do que o necessário. Evitar sofrer quase sempre será a melhor forma de sofrer mais. Isso cabe para qualquer circunstância de nossa vida. Pois ao nos percebermos tão complexos, descobrimos nossa simplicidade...e na simplicidade da vida nos percebemos focalizados ( focados) no que de fato queremos. A saída de nossa confusão existencial está na simples pergunta do gato a Alice: ”...para onde você quer ir...” Faça esse exercício e se pergunte ” para onde você quer ir...” com suas atitudes, com sua tristeza, com sua loucura, com seu desespero. Pergunte ao seu sofrimento psíquico onde ele quer chegar ...e talvez você se assuste com a resposta que normalmente estará tão "clara" que nem acreditará!
Um bom fim de semana para todos, focado naquilo que de fato queremos e precisamos. Cabe a você descobrir, o que você de fato quer!

Queremos o que desejamos?



Queremos o que desejamos? Em nossas contradições e em nossos atos falhas deixamos escapar o que queremos de fato. Olhar as intenções de nossos atos, focarmos naquilo que de fato intencionamos parece ser a chave para não nos enganarmos a nós mesmos. Quando provocamos alguém, insultamos, agregamos, apaixonamos, por meio destas linguagens subjazem falas impronunciáveis. O processo analítico desnuda essas falas. Isso assusta alguns que temem serem descobertos como HUMANOS, pessoas que não são completas e em suas imperfeições buscam uma formam de compensar por meio do sofrimento. Gilberto Safra, ao falar sobre o sofrer, o atribui freudianamente ao ato do neurótico. O doente não sofre!!! Daí retornamos a Forber: Queremos o que desejamos? Ao buscarmos não sofrer, desejamos adoecer. O Doente é o louco!!! De fato queremos ser loucos? Pensemos nisso: sofrer dói, mas é uma forma de vivenciarmos nossa dor, que precisa ser expressada. Na análise, expressamos a dor e por isso não precisamos somatizá-la!! Se está sofrendo, procure um analista e permita-se descobrir o que de fato quer!! Um dia uma paciente me disse que não suportava mais sua mãe. Perguntei: se ela morrer é melhor? Ela disse enfaticamente: Nunca! Amo minha mãe! Desejava a morte da mãe , mas não suportava a culpa desse desejo!! As dores e depressão vinham como compensação, castigo pelo desejo horroroso de matar a mãe! Tirar seu sofrer era aleijá-la. Ela precisava não de parar de deprimir, mas de entender o que desejava e o que queria!!

A Psicanálise e a Universidade


A universidade surgiu no final do século XI na Europa.
O crescimento das cidades, maior divisão do trabalho e a formação de um espaço cultural comum a toda a cristandade criaram uma nova paisagem intelectual propícia à formação institucionalizada em vários campos do conhecimento.
A primeira universidade foi criada em Bolonha (Itália), em 1088.
Logo depois, foram fundadas as universidades de Paris (França) e Oxford (Inglaterra). Em seu início havia três grandes campos de estudo: Medicina, Direito e Teologia.
Para ingressar, o aluno devia obter antes uma formação literária e científica básica, o chamado ensino de base - o das artes - que constava do estudo de gramática, lógica e retórica e também de aritmética, geometria, astronomia e música.
Após seis anos (geralmente dos 14 aos vinte anos de idade) o aluno obtinha o mestrado em artes.
Para o doutoramento em Medicina e Direito eram necessários mais seis anos de estudo.
Já o doutor em Teologia precisava de oito anos de estudo e devia ter idade mínima de 35 anos.
A escolástica era, por excelência, o método do intelectual da Idade Média.
Este se baseava nas contribuições da civilização cristã e do pensamento do mundo antigo: Bíblia, Platão, Aristóteles, entre outros...
Foi Santo Tomás de Aquino (que estudou e lecionou em Paris) quem elaborou a síntese entre o pensamento cristão e as idéias de Aristóteles, buscando unir fé e razão, questão essa muito presente naquela época e ainda hoje alvo de reflexões (Le Goff, 1993).
O Brasil, descoberto mais de quatrocentos anos após a Universidade de Bolonha ter sido fundada, ainda precisou esperar quase outro tanto para dar o passo inicial.
A primeira universidade surgiu em 1827, em Olinda, Pernambuco, enquanto que em São Paulo a Faculdade de Direito (1827) e de Medicina (1913) foram as sementes para um desenvolvimento que não mais parou.
A Universidade de São Paulo foi oficialmente fundada em 25 de janeiro de 1934, sendo que a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras se constituiu como eixo central do sistema universitário.
A Psicologia era uma cadeira na Filosofia já em 1934, mas o Instituto de Psicologia como um órgão autônomo só passou a existir a partir de 1969, tendo hoje pouco mais de 30 anos, portanto. Considerando os cerca de 1000 anos de vida acadêmica na universidade, podemos dizer que nós ainda estamos nos cueiros...
Essas brevíssimas informações históricas mostram tão-somente que o interesse em sistematizar a pesquisa e o ensino do conhecimento humano, dentro de uma instituição, existe já de longa data, fato este que, com certeza, trouxe benefícios assim como prejuízos à criatividade no trabalho científico.
A Psicanálise como método próprio de investigação do funcionamento psíquico, como disciplina autônoma, como prática terapêutica e como campo de pesquisa da mente está à disposição apenas há 100 anos.
No que diz respeito à pesquisa propriamente, apesar de várias publicações a respeito, do interesse de muitos psicanalistas e da disposição e procura por contatos interdisciplinares, há muita controvérsia, discordância e críticas.
Os conflitos existem, sobretudo, quando se trata ou se pretende fazer pesquisa clínica, isto é, quando o objeto de observação e de investigação é a prática do analista, pois ele fica numa posição delicada, desde que se torna sujeito e objeto de sua pesquisa, simultaneamente.
O método psicanalítico considera o interjogo das reações transferenciais e contratransferenciais presente na relação analista-analisando.
Uma vez que este é um processo basicamente inconsciente, a necessária isenção e objetividade do analista tende a ficar comprometida.
Desta forma, é de se esperar que o analista pesquisador de sua própria clínica tenha atingido um alto grau de conhecimento de si mesmo, a fim de manter bem colocado seu discernimento; mas esses analistas, em geral, não têm interesse em realizar pesquisas em universidades...
As dificuldades não são tantas quando se fazem outras pesquisas, não-clínicas, mas envolvendo a Psicanálise.
Por exemplo, as pesquisas no campo da Psicanálise Aplicada utilizam-se do vértice psicanalítico para abordar produções realizadas em outras áreas do conhecimento humano.
Encontram-se, facilmente, boas dissertações e teses cujo tema é a abordagem psicanalítica de obras literárias, artísticas, biográficas, ou mesmo científicas.
 A maior parte desses trabalhos encontrou abrigo nos cursos de pós-graduação das universidades, sobretudo nas faculdades de Psicologia.
Vários problemas se apresentam para a pesquisa em psicanálise na universidade.
Definir com razoável clareza o foco de pesquisa, a questão que interessa e como será abordada essa questão é apenas o começo.
O fulcro conflituoso central talvez seja relacionado aos problemas metodológicos. De acordo com Feyerabend (cf. Horgan, 1998), qualquer metodologia serve, o que não significa que qualquer método indiscriminado deva ser usado, mas sim, que o objeto de estudo requer que se descubra qual a metodologia adequada para estudá-lo.
Dentre os psicanalistas pós-Freudianos que mais contribuíram para o rigor científico da prática clínica, destaca-se Bion (1991).
Foi ele quem se preocupou mais seriamente em propor uma teoria que pudesse ser usada para tornar generalizável aquilo que se observa na clínica, inclusive desenvolvendo um sistema de notação.
Contudo, essa teoria é mal compreendida até por psicanalistas, pois é fruto do alto grau de desenvolvimento atingido pelo próprio Bion e que poucos têm alcançado. A sofisticação não decorre de ser uma teoria particularmente difícil, mas sim, de que sua apreensão é resultante do desenvolvimento pessoal do analista.
Não se pode negar, contudo, que a parceria entre Universidade e Psicanálise tem um quê de artificial.
A Universidade independe da Psicanálise para sobreviver e o inverso também vale: a vida da Psicanálise encontra sua fonte sobretudo na prática clínica.
Nenhuma das duas precisa da outra para sobreviver e para continuar em atividade. Naturalmente, isso não quer dizer que uma não pode contribuir - e muito - com a outra.
A cooperação mútua pode ser profundamente enriquecedora. Do meu ponto de vista, acredito que a Universidade, em especial, pode se beneficiar largamente da atividade de psicanalistas em seu meio.
Apesar da Psicanálise ter entrado na Universidade, formalmente, há bem pouco tempo, por meio de disciplinas da graduação e depois da pós-graduação, ou de cursos de especialização e depois pesquisas, sua principal contribuição vem do fato de propor uma concepção de homem que pretende uma melhor integração entre todas as suas facetas.
Como escreveu Schorske (1990), a Psicanálise no início do século XX trouxe à tona o "homem psíquico," que passou, a partir de então, a fazer parte de uma investigação sistemática e específica, como nunca o fora antes, mesmo tendo sempre sido objeto de interesse de estudiosos de todos os tempos.
Supondo que haja um interesse mútuo, penso que a pesquisa é uma das vias pelas quais a cooperação de mão dupla possa se dar. Torna-se indispensável, porém, descobrir como levar adiante essa cooperação, sem haver desvirtuamento daquilo que é específico da Psicanálise e dentro de uma instituição do porte da Universidade.
Estou longe de ter uma proposta, mas penso e espero que a própria experiência venha a ensinar os caminhos.
Como afirmou Eizirik na mesa sobre Pesquisa, a Psicanálise, através de Freud, namora a Universidade desde seu início.
Na verdade, não é a Psicanálise - que prescinde da academia - mas sim, os psicanalistas, pois a Universidade atrai muito e isso por vários motivos: interesse em ampliar o conhecimento, uma certa idealização da vida acadêmica, campo de trabalho em tempos razoavelmente difíceis...
A Universidade, em minha opinião, não forma o psicanalista, como afirma Gilberto em sua apresentação.
A formação do psicanalista, como tal, dá-se pela própria análise e também analisando outros. Se ele não consegue desenvolver-se por esse método, não há outro, não há substituto à altura.
É a clínica da auto-observação e da observação do outro na relação analítica que propicia o desenvolvimento do analista em sua específica atividade.
Só se descobre a mente do outro, ajudando-o a descobrir-se, através da descoberta da própria mente. Não há outro jeito, tudo o mais é ilusório.
A academia, em minha opinião, contribui para outra coisa, como, por exemplo, para ajudar o psicanalista a pensar como um pesquisador, não como clínico. Isto ele aprende no exercício particular de sua profissão.
Não é verdade que a pesquisa que o analista faz em sua clínica é a mesma que se pode fazer na universidade, num mestrado ou doutorado. Esta última supõe uma publicação de resultados que possam ser generalizados e compreendidos por todos.
A pesquisa do analista na intimidade de seu consultório, o mais das vezes, é impublicável; esta é uma característica própria da atividade analítica.
O analista pode, sim, usar sua formação para fazer um recorte no modo de abordar o problema que está interessado em examinar, numa situação outra, que não o setting analítico.
Em minha opinião, ainda se está tentando descobrir se a Universidade pode fornecer essa outra situação.
Penso que grandes são as dificuldades e os obstáculos, mas, ao que tudo indica, as portas não estão fechadas, nem de um lado, nem de outro.
Existe boa vontade e desejo de acertar e isso é importante para formar a base do desenvolvimento comum.
A meu ver, contudo, ainda há muito a aprender e necessários ajustes terão que ser feitos ao longo do tempo, com especial cuidado para que não se desfigurem, nem a prática psicanalítica, nem a academia.
  
Eva Maria Migliavacca
Instituto de Psicologia – USP

Referências
Bion, W. R. (1991). Transformations. London: Karnac.
Horgan, J. (1998). O fim da ciência (R. Eichemberg, trad.). São Paulo: Companhia das Letras.
Le Goff, J. (1993). Os intelectuais na Idade Média. Lisboa, Portugal: Gradiva.
Schorske, C. E. (1990). Viena fin-de-siècle: Política e cultura (D. Bottmann, trad.). São Paulo: Companhia das Letras; Campinas, SP: UNICAMP.

Porões do Subconsciente - por Lécia Souza

Adentrar no âmago mais profundo de seu subconsciente
Andar por porões antes obscuros e se maravilhar
Ter um encontro pessoal com seu eu ali presente
Chorar, sorrir, sentir que vale a pena caminhar.

Dever, cair e levantar, se construir.
E acima de tudo, se conhecer.
Não permitir que esse ser especial venha a ruir
Esse encontro vem edificar, fortalecer
Apresentar a forte guerreira
Que existe dentro da aparente frágil mulher.

A psicanálise, luz a orientar.
Mão estendida no sofrer.
Abraço afetuoso, acalentar.
Conduz a conhecer esse ser escondido dentro de você.
Com tantas limitações possíveis
Qualidades e defeitos.
Porém, forte, belo inigualável
ansiando por viver e ser feliz!

Vencer a ansiedade - Uma (não) necessidade.

De forma sábia, somos dotados pela natureza da capacidade de nos anteciparmos aos problemas, evitando assim consequências nocivas à nossa h...